ADVERSIDADES X ESCOLA
Em artigo publicado na última edição da revista Trabalho, educação e saúde da
Fiocruz, o pesquisador Gideon Borges dos Santos, da Escola Nacional de Saúde
Pública (Ensp/Fiocruz), buscou refletir sobre as estratégias que professores
constroem para enfrentar ou fugir das adversidades do cotidiano escolar, como a
não aprendizagem, o comportamento indisciplinado dos alunos, a falta de
material didático-pedagógico e o cansaço ou a indisposição para ministrar as
aulas. Segundo o pesquisador, esses mecanismos operam de forma contraditória:
servem, ao mesmo tempo, tanto para promover o ensino quanto para evitar o
desgaste dos docentes.
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Uma aula bem dinâmica com meus alunos do 5º ano com estrategias voltadas às novas tecnologias. Um novo jeito de vencer as adversidades do cotidiano escolar.
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Para a pesquisa, Gideon observou um total de 40
profissionais, sendo eles professores, coordenadores e diretores, em uma escola
municipal da cidade de Salvador, durante dois anos. O estudo foi dividido em
três fases: análise de situações cotidianas no trabalho, como intervalo de
aulas, reuniões pedagógicas, horários de almoço e eventos comemorativos;
verificação de documentos que auxiliam a organização do trabalho pedagógico,
por exemplo, regimentos escolares e decretos; e entrevistas com oito docentes.
O pesquisador constatou que a falta de material pedagógico é um obstáculo sério
à ação do professor. “Por conta dessa adversidade, é comum o professor
permanecer ministrando aulas convencionais, como copiar no quadro e solicitar
que o aluno faça a transcrição, ou propor atividades dinâmicas, lúdicas e
criativas para os educandos interagirem entre si e obterem o máximo de
aprendizagem”, comenta Gideon. No entanto, ele acrescenta que essas mesmas
atividades podem ser utilizadas como preenchimento do tempo de aula. “Enquanto
os alunos estão reunidos em grupo, em sala de aula, o professor aproveita esses
momentos para ficar nos corredores da escola conversando com o colega ou para
permanecer sentado em sua cadeira, vendo algum outro material”.
Além
disso, Gideon aponta que os docentes demonstram interesse por seus alunos ao
conversar com os colegas para saber a situação dos educandos em relação a
outras disciplinas e trocar informações sobre o comportamento e personalidade
deles. Mas o pesquisador acrescenta que o artifício pode ser
realizado em benefício próprio. “Essa necessidade de fazer comparações é uma
alternativa para os professores não se sentirem culpados pelo baixo rendimento
dos alunos, caso estes tenham desempenho e comportamento semelhantes em outras
disciplinas”, esclarece.
Gideon também
destaca o alto número de licenças médicas. “Se somássemos a quantidade de
dias de liberação, por motivo de saúde, que os professores da escola pesquisada
tiveram, desde 1998 até 2003, teríamos um total de 1.212 dias. Se a
proporção for correspondente, poderíamos dizer que, a cada grupo de 40
professores, pelo menos um poderia ser contratado por um ano letivo e pago com
o que se gasta com a liberação de professores por meio desse
recurso”, estima Gideon, acrescentando que há um outro lado na questão. “Apesar
do número de licenças ser muito grande, também é comum, por exemplo, haver
professores que, mesmo estando indispostos ou doentes, se encontram na escola
desenvolvendo suas atividades. Isso se dá ou pelo sentimento de vergonha em
faltar e ser considerado preguiçoso, indolente, irresponsável, ou, então,
porque encontra no ato de ensinar um recurso de luta contra a
doença”.
No
dia-a-dia, assim, o que estaria em jogo, de acordo com o pesquisador, é o que
provoca maior ou menor desgaste ou bem-estar ao profissional, ainda que isso
comprometa o desempenho do processo educativo. “Sai de cena a ideia de que o
mais importante é o processo de educação e entra em cena o que oferece melhores
possibilidades de equilíbrio biopsicoafetivo ao professor. Todo indivíduo opta
pelo seu bem-estar”, afirma Gideon. “Se a escola não oferece as condições
mínimas adequadas de educação, a luta será pela sobrevivência e pelo bem-estar.
Cabe ao professor cumprir o prescrito ou, então, criar um modelo paralelo de
gestão”, conclui.
https://agencia.fiocruz.br/professores-criam-estrategias-para-enfrentar-as-adversidades-escolares

Muito bem! Parabéns pelo excelente trabalho
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